Audiovisual Brasileiro: indústria de oportunidades e desafios

Por Steve Solot* (publicado no Jornal do Commercio, 30/3/2016)

O Rio de Janeiro é o tradicional anfitrião dos dois mais importantes eventos audiovisuais do país, o Festival Internacional de Cinema (Festival do Rio), em outubro, e o Rio Content Market, que inicia sua 6ª edição no próximo dia 9 de março como o maior evento internacional de negócios e conteúdo audiovisual multiplataforma da América Latina. Apesar da retração geral da economia brasileira, os indicadores da indústria audiovisual no Brasil foram favoráveis nos últimos anos e trabalhamos para que continuem assim.

De acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), 2015 encerrou com uma bilheteria total (cinema nacional e estrangeiro) de R$ 2,35 bilhões, número 20,1% maior que em 2014, e crescimento de 11.1% em ingressos vendidos, com um total de 172,9 milhões de espectadores. É o 11º ano consecutivo de crescimento do mercado. Com a inauguração de 252 novas salas em 58 complexos, o parque exibidor aumentou em 5%, fechando o ano com 2.960 salas no país, sendo que 92% já operam com o sistema digital de projeção.

O cinema nacional, em específico, também teve um ano de alta. Em 2015 foram lançados 128 longas-metragens nacionais, 12,3% a mais do que em 2014, o que significa crescimento de 16,4% em renda e 10,1% em público. Foram R$ 266 milhões arrecadados nas bilheterias e 21,6 milhões de ingressos vendidos, um aumento significativo quando comparado aos R$ 228,5 milhões e 19,6 milhões de ingressos do ano anterior, além de um market share que se manteve em 12,7%.

As perspectivas da indústria são favoráveis. No setor de TV aberta, mantém-se a tendência de as redes atuarem como produtoras e distribuidoras do conteúdo para a televisão. No segmento de TV por assinatura, com uma atual penetração de 28,9% dos domicílios, a produção independente brasileira está agora presente em 96 canais, em boa parte devido à Lei 12.485/11, que viabilizou a presença de filmes e obras seriadas brasileiras na programação.  A lei tem sido uma força motriz no setor audiovisual, na medida em que permite que as empresas de telecomunicações distribuam programação de TV a cabo, ampliando a participação do conteúdo nacional, em horário nobre, na televisão fechada.

Com a expansão da banda larga, o segmento de vídeo sob demanda é considerado o novo e promissor mercado para a expansão da indústria global e, particularmente, no Brasil, seja na modalidade de assinatura ou gratuito. De acordo com a Ancine, até junho do ano passado 25 serviços de VOD operavam no país. As plataformas VOD já se apresentam como uma opção importante de monetização para os produtores de conteúdos audiovisuais no Brasil, mas há também questões importantes que definirão o futuro deste serviço, como sua regulamentação e tributação, a convivência com os modelos de negócio tradicional e a competição entre as plataformas.

As ações movidas pelo SindiTelebrasil (sindicato patronal das empresas de telecomunicações) na Justiça Federal contra o recolhimento da Condecine (contribuição destinada ao financiamento das atividades da Ancine) cuja liminar que suspendia o pagamento foi recentemente revogada, surgem como um fator desestabilizador da indústria, com repercussões graves para a produção de conteúdo nacional. De acordo com a agência, se não houver mais esta contribuição, haverá uma crise profunda no mercado. A Ancine pode perder bilhões em recursos, o que resultará em fortes implicações para todos os programas financiados pelo Fundo Setorial Audiovisual (FSA), que tem a Condecine como maior parte de seu orçamento. O governo estima que mais de 300 longas-metragens e ate 300 series de TV deixem de ser produzidas apenas no primeiro ano.

A indústria brasileira oferece múltiplas oportunidades em cinema, TV aberta, TV fechada, VOD e internet para investidores, empresários, distribuidoras e produtores em todas as plataformas. A Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio) e o Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio atuam em conjunto para apoiar uma maior integração com empresas americanas na indústria audiovisual brasileira e impulsionar ainda mais seu desenvolvimento. Todas essas chances vivem um momento de suspensão mediante os atuais e importantes desafios. Resta saber se o filme terá um final feliz.

* Steve Solot é presidente da Iniciativa da Indústria Criativa e Cultura da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio), presidente da Rio Film Commission e presidente do Centro Latino-americano de Treinamento e Assessoria Audiovisual (LATC)